A poesia afastou-se de mim. Formávamos um belo par...
Trazia na memória uma estante completa dos mais belos
Sentimentos, mas a poesia cansou das minhas indecisões
Dos meus atropelos, das lágrimas escondidas que muitas
Vezes rolaram em vão. O cansaço das horas... cicatrizes
Que o corpo esconde, não é poesia. Inutilmente a chuva
Cai, grita o amor: a cama vazia desconhece do corpo as
Formas, o soluço abafado, insistente, desesperado. Não
O barulho trazido agora pelo vento do mar não é poesia.
Também não há poesia nas janelas inquietas das casas...
Nas conversas alegres das mulheres, na seriedade quase
Sempre estúpida dos homens, no beijo apaixonadamente
Simples dos casais. A poesia afastou-se de mim, agora é
Tarde, tarde demais. Um povo luta contra a fome: não é
Poesia. Crianças que brincam nos semáforos da avenida
Crianças que morrem nos finais de semana: não é poesia.
Não é poesia e agora é tarde, muito tarde, tarde demais.
A sala onde trabalho não é motivo de poesia. Os papéis
empilhados, armários, mesas, cadeiras, máquinas, livros
não são fonte de poesia. Carregados de peixes chegam
Os barcos: não trouxeram a poesia. O canto do pássaro
Branco não é poesia. Milhões de bocas, de sonhos, não
são poesia... Descrente caminho pelas praças da cidade:
A embriaguez não traz de volta o desejo louco da poesia.
Não soube decifrar a linguagem. É tarde, tarde demais...
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