segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Banquete

a poesia
substância arrancada
do suor da tarde, de longe vem!
significação de rastros
e de palavras não correspondidas
a poesia é quimera
atirada no precipício
desta tardemar sem praia
e repleta de vícios.
a poesia fere por dentro
e povoa com novos objetos
a mesa simples
onde são servidos os meus versos!

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Entrega

O sol forte da tarde
cedeu aos pingos da chuva.
O silêncio tomou conta do dia
como um sopro abafado de morte.
As sombrinhas desfilavam coloridas
mas tristes...
De onde estou deixo a emoção cristalizada:
escrevo em versos estruturados o que sinto.
Agora o aguaceiro desentranha da memória
os múltiplos e desejados cheiros da infância
mas tristes...
Refletida nas tantas poças de água do coração
a saudade - pedra opaca talhada com exatidão
pergunta (amor) pelos dias vividos de antigamente
mas tristes...
O silêncio tomou conta do dia
como um sopro abafado de morte.
De onde estou vejo a tarde se despedindo prisioneira.
Mais uma noite vem com sua quase envelhecida bandeira.
Dedilho com meus medos o teclado do corpo oferecido
mas triste...



Antes

antes que a noite acabe
antes que a chuva passe
vamos: a vida é assim!

o vento arranca
sussurros do tempo...
vamos: a vida é assim!

antes que a noite acabe
antes que a chuva passe
...
a lágrima, cárcere de luz
parte-se ao meio.

Cheiro triste

A noite entra
com seu cheiro
triste de saudade.
Tenho desejos de palavras
mais que perfeitas (incontidas
e urgentes)
para a dura explicação da vida.
Inacabado
ofereço a você
essa lânguida paixão.
...
A noite entra
com seu cheiro de saudade:
florida... deflorada.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Sem aviso

Sem aviso
sutil que fosse
sua voz deixou nu
o desejo escondido
arrancou de mim
essa languidez
preguiçosa
encheu-me de excessos
semeou desafios
calou a manhã!

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Recado

Não quero a triste cor dos teus olhos
sombreando as curvas do teu rosto.
Quero a desmedida alegria do tempo
o toque macio e leve dos teus lábios
(fruto maduro)
e o gosto conjugado da tua saliva
quando teu beijo me fere e me desarma...

Eu te queria

Eu te queria
atônita e perdida
envolvida em teus mistérios.

Mesmo fechando os olhos
eu te achava: cheiro de fruta
colhida no quintal da saudade!

Porque teus sons
de sino da minha cidade
ainda ecoam pelas ruas do meu corpo.

Eu te queria
atônita e perdida
queimando meus desejos
escondida que ficou dentro de mim...

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Angústia

Há um cheiro de angústia
nesta manhã que abre o dia.
Mesmo não querendo ver vejo
o sonho a se rachar no tempo.
Do tempo bebo teus desígnios
aceitando o que restou perdido.

Há um cheiro de angústia
nesta manhã que abre o dia.
E éramos nós, eu e o sonho
buscando no outro o caminho
desconhecido da esperança.
Do tempo bebo teus desígnios...
E nos perdemos, o sonho e eu
na linguagem única dos homens
rastro do que não se alcança.

Há um cheiro de angústia
nesta manhã que abre o dia.
...
Sinto o sopro da memória
me assaltando novamente.
Devoro auroras e crepúsculos.
O sonho vem me salvar do medo:
liberto estou e recomeço!

Vencido

A palavra arranha
o dia ensolarado.
Depois da noite
solitária e vencida.

Sim, perdi o sonho
que faltava. Outro
sonho então restava.

A palavra arranha
o corpo derrotado.
Depois da triste
noite embriagada.

Sim, perdi a luta
e a esperança.
Ando pálido
pelas ruas da cidade!