Hoje não tem poesia
porque uma criança morreu
e perdemos nosso tempo
discutindo o de sempre.
Não tem poesia
porque a justiça fugiu de nós
envergonhada, com os olhos
tristes e distantes.
Hoje não escrevo
porque o dia não trouxe a luz
das manhãs. Ela ficou escondida
nos morros, vermelha de sangue.
Uma criança morreu e somos todos culpados!
Hoje não tem poesia
porque as ruas estão cheias de crianças
e nada fazemos. Não escrevo
porque o morro saiu às ruas
e me vi no meio deles.
Não, não tem poesia
porque somos mentirosos:
amamos a guerra, o ódio, a destruição.
Uma criança morreu e ficamos indiferentes.
Gritamos por fraternidade
e construímos a desigualdade.
Hoje não tem poesia, porque
uma criança morreu e somos todos culpados!
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