Outro dia alguém me chamou de néscio. Curioso, perguntei-lhe o significado da palavra. Depois de idas e vindas, o incauto confessou-me "que não sabia e que a escutara em uma reportagem da Globo". Assim somos nós: lemos menos jornais e menos livros e, em contrapartida, estamos vendo mais horas de televisão. Viva a "cultura televisiva"!
Não vou tentar definir o que é cultura, como fizeram muitos. Só o homem é cultural. Faz parte da cultura tudo o que é adquirido após o nascimento. Cito um velho e estimado professor que dizia "ser cultura tudo aquilo que fica, depois de tudo se ter esquecido".
Cada pessoa, cada comunidade e povo têm sua própria cultura. Mas insistimos em desprezá-la, porque estamos virados para a sobrevivência, para o estritamente necessário; faltam-nos tempo e possibilidades econômicas para criar momentos de lazer, indispensáveis para contatos com as fontes culturais. Assim, nosso aprendizado tem vindo da televisão. É incrível a quantidade de pessoas que pensam conhecer sobre esta ou aquela matéria!
Vejo, triste, minha cidade ser contaminada por políticos, profissionais liberais e até mesmo professores que, vivendo na superficialidade, julgam-se capazes de gerenciar a coisa alheia. São tantos os títulos que ostentam, as posições sociais que procuram manter, que tenho pena. Não conseguem segurar uma hora de discurso sobre determinado assunto, mas... aos néscios, as batatas!
Temos de arriscar mais; desligar a televisão e reconhecer nossas limitações. Precisamos de um toque de mágica que permita à pobre Cinderela se transformar em uma bela e encantadora princesa.
Recomendo aos néscios um reforçado e enriquecido embasamento cultural. Leituras e mais leituras são necessárias. Devemos ler Machado, Shakespeare, Camões... Cervantes e Dickens; conhecer e apreciar as obras de Malfati, Degas, Rivera, Michelangelo e todos os grandes artistas plásticos da história; necessitamos ouvir os acordes e as letras de gigantes como Jobim, Gershwin, Beatles, Elvis, Ellington, Armstrong, entre tantos; saber das conquistas de Einstein, Darwin, Santos Dumont, Oswaldo Cruz, Piaget; entender Adorno, Kant, Foucault e outros filósofos; carecemos das imagens de Truffaut, Hitchcock, Glauber, Spielberg, Antonioni, Fellini, Kurosawa...
Sem que tenhamos contato com as principais referências culturais das diversas áreas de produção intelectual humana, como podemos pretender a realização plena das idéias?
Somos, sem o apoio desses gigantes, meros repetidores de conceitos e idéias, desprovidos de imaginação e de asas próprias que embalem nossos sonhos, os melhores de nossos vôos.
O mundo não termina em nossas belas praias; o mar lambe nossos pés e traz notícias de coisas novas... Recomendo aos cegos de Piúma uma caminhada ao topo do Monte Aghá. Lá o vento frio arrancará de nós a ignorância e nossos olhos se abrirão para a liberdade. Quanto ao significado da palavra néscio... procurem um dicionário da nossa Língua.
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