sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Definição

não é da tristeza
o garimpo do verso
da chuva fina batendo
no vidro da janela, agora
não é da solidão
o garimpo do verso
do coração que segue solto
seu destino de senhor e aprendiz
o garimpo do verso
não vem do desânimo
com que olhamos para o homem
não vem da noite fria
esse verso que insiste, que grita
porque não o escutamos
também não é matéria do verso
a saudade líquida dos amigos que deixamos:
o verso vem
do olhar que vê o mundo, apenas!

Mensagem

uma prece triste para esse dia.
um nó de marinheiro na garganta
engasgando o dolorido desejo de chorar!
o mergulho nas palavras e nas fotografias
mais uma vez... mais uma vez... uma vez mais.
...
enquanto estiver aqui
andarei com a saudade no coração.
amarei a quem não me ama... sorrirei para não morrer.
enquanto estiver aqui tentarei ser feliz novamente
mesmo sendo impossível sem sua presença transformadora...

Desolação


sonho ruiu...
eu
único sobrevivente
caminho
entre os escombros!

domingo, 24 de novembro de 2013

Brinde

avisem aos bêbados da cidade:
meus olhos naufragados serão servidos
repletos de lágrimas e de saudades...
sim, darei de beber aos desesperados
o vinho suave e amargo da amizade!

Estranha solidão

Fecha os olhos:
as recordações trazem
aquele novembro inacabado, triste
quando pensavas que a música
fizesse desaparecer a estranha solidão
que insiste dentro das tuas entranhas.
...
Habitas o mundo tecendo teus sonhos
encurvado sob o peso das decepções!
Habitas... Porque a música
enlouquece teus desejos de viver
e danças com loucura de criança ingênua
a música que trazes daquele novembro triste.
...
Fecha os olhos:
o coração guarda a melodia daquela tarde
quando os olhos acenavam certezas de adeus!
Sim... As recordações trazem
aquele novembro inacabado e triste
quando pensavas que a música, somente a música
fizesse desaparecer a estranha solidão que te habita.

Labirinto

o coração e o outro:
dois
perdidos na tarde fria!
o sentimento... a agonia
não explicam sua ausência 
vazia
vadia.
o coração e o outro:
dois
perdidos na tarde fria!
porque a tarde roubou do coração
a sombra
como se do outro
o sentimento saísse
desejando nova vida...
assim ficamos: ausentes
vadios
vazios.

difícil sair deste labirinto!
sobreviventes somos
- o coração e o outro - deste sonho! 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Sem título

o
pensamento
corre
para
além de mim:
corpo que morre!

Pássaro

O menino que vive dentro de mim
é inseguro e triste demais para fugir

para romper esta gaiola onde estou prisioneiro
para espalhar suas palavras em meio a tanto silêncio

simplesmente vive - e aceita - nesse coração em chamas!

Insônia

...
quando a noite
é só o rumor do coração descompassado
e o barulho distante de passos na calçada

nesta hora
em que as mãos procuram na saudade
a tão necessária lembrança do amor e da cidade

encontro
em cada canto da casa - olhos abertos de coruja - a solidão!

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Idade

cidade
saudade
saudade
cidade
ci(sau)dade
(c)idade
(mo)cidade:
amorcidade!

Cidade

as palavras
fundem-se ao corpo
e nada dizem da saudade
...
o tempo consumindo
as lembranças da cidade
...
grita o coração: te amo
mulher guardada na poesia
cidade-jardim
de ruas e esquinas
...
metamorfose de amor e nuvem
beijo esquecido inaugurando rugas
...
grita o coração: te amo
cidade-bar pico da bandeira
...
no branco da folha a (pa)lavra o tempo...

Retrato

havia o jardim da pracinha
onde as rosas eram colhidas
sempre à noite e em silêncio.
havia a casa da rua vinte e um
onde morava a bela menina
que roubava nossos sonhos.
havia o gesto simples de amar
e o sorriso alegre e necessário
ofertado sempre aos amigos.
existiam as manhãs ensolaradas
e as diversas ruas e escadas
que terminavam quase sempre
no colégio do fim da avenida.
havia o gesto simples de amar
a doce professora de história
(mesmo que sufocado e triste).
existiam aqueles mais próximos:
andávamos perseguindo sonhos
desconstruindo a vida e o tempo
falando dos encontros futuros
que nos aqueceriam na saudade!
...
hoje arrasto meu corpo no mundo.
existe o gesto de amar - mas mudo.
há um jardim sem rosas - é tudo -
onde alimento os sonhos-pássaros
com pedaços pequenos de saudade...

Definição

o que sei da essência?
do beijo que se foi fica o perfume...

o desejo estava em mim antes do desejo.
terrível futuro: não viver aquilo que sonhei!

o que sei da luta da vida?
do tempo que passou fica a saudade...

o que sei da guerra dos homens?
- nada!

(só
minha alma beija o ar leve da manhã
e olha a paisagem confusa e perdida da cidade
e sorri - apenas sorri - para o improvável)

Instante

está vazio meu coração
como as noites sem estrelas...

as palavras parecem as mesmas
mas o homem não é mais o mesmo!

ele é apenas o desejo que sangra
- aberto
e nada mais.

Paisagem

A tarde cai suavemente.
Gaivotas no azul do céu...

O mar observa o fim do dia
e o dia se esconde no silêncio.

Vem a noite
com seu espetáculo de estrelas!
...
Antes que o inverno cubra meu corpo.
Antes que a brisa leve os sonhos meus.
Antes que a noite, aquela que não desejo
se encontre com o tempo que escorre...
Quero a tarde que cai suave
aprisionada no instante do poema.


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Quando pela primeira vez

quando
pela primeira vez amei
era puro, ingênuo e simples
como um dia foi meu coração.

era um sentimento especial:
tanto que o guardei na memória
e furtivamente, escondido de todos
o procurava nos momentos de solidão.

não conhecia teorias literárias nem os grandes poetas
e tinha vaga notícia dos homens e de suas trapaças ao viver.

quando
amei pela primeira vez
era puro demais, ingênuo e sem malícia
como um dia foi meu coração.

hoje
descubro que nada mais restou.
arranquei-o. não o merece este mundo torto.
e meu coração
meu coração ainda bate, mas parece morto!

O que se sabe de mim

o que se sabe de mim
é que roubo palavras ao vento

que coleciono momentos
em pequenos pedaços de tempo

o que não sei... invento
é o que basta dizer

que escrevo versos sem rimas

o que se sabe de mim
é que roubo palavras ao vento

que falo de amor... mas sonhado!


Manifesto

O poema é sobre um caminho:
a marcha dos homens e das mulheres
a marcha de todos nós que lutamos agora.
É para ser meditado apenas enquanto escrevo
ou nos momentos de intensa desilusão e agonia!
Não é para ser a leitura de alguém sem liberdade.
A poesia se basta... É uma luz rara do pensamento.

Escrevo pelo pulsar que o poema deixa no presente.
Escrevo porque o grito exaltado das ruas me fascina.

O poema é sobre o caminho.
Tem a ver com migrar juntos por céus opostos.
É somente um meio de ir ao encontro que assumimos
e acender o fogo da luta antes que ele morra no horizonte!

Elegia

Quando as palavras restarem vazias
e todo o meu sentimento adormecer
entrará em meu quarto sem alegria
trazida de manso pela mão da noite
a saudade... a saudade... a saudade!

Caçador de palavra

eu
caçador de palavra
procuro saídas para o sentimento.
disponho no papel a emoção... alta noite.

sinto a cidade, fonte secreta da palavra
que descansa como se escrevesse poesia.

como se escrevesse... eu, caçador de palavra
assentiria
se me dissessem que a poesia começa
na saudade que "anda  no peito de que ama".

caçador de palavra, procuro. alta noite...
o peito apertado.

encontro a palavra testamento
que se mata em cordas de horizonte!


domingo, 5 de maio de 2013

Nasci de um encontro

nasci
de um encontro
talvez de palavras
talvez de encantos.
nasci e não havia mais saídas!
respirei e chorei e brotei.
tenho descaminhado desde então
porque caminho para dentro de mim.
nasci... ou melhor
estive sempre naquele ponto perto do fim.
vivi muita coisa nesse durante: talvez memórias.

nasci... ou pior
perdi quase tudo nesse quando. adorava perder!
achava depois outras coisas: talvez encontros.
nasci e vivi intensamente para além de mim.
nesse durante talvez memórias... talvez encontros.
nasci e fecundei!

Alguém

Teve um dia um alguém.
Um alguém desimportante.
Mas que guardava nos olhos
a cor e o perfume das manhãs.
Suas mãos eram grandes... muito.
O mundo ficava pequeno... quando.

Teve um dia um alguém. Um desalguém!
Mas que trazia nos olhos o brilho do sol.
O mundo e a vida ficavam pequenos... quando.
Seus pés não eram.
Mas deixavam planos de caminhos.
Teve um dia um alguém: pra desconserto de mim.

sábado, 20 de abril de 2013

Ausência

Com silêncios
fiz um gargalo
nos dias do meu tempo.
De resto
faço uso da solidão
que a ausência me fornece.
Ao desfilar na avenida
meus olhos cantam
umas palavras mudas...
e desfaleço.

A manhã é pequena
para quem se deita nela!
A noite vem e me ajuda:
eu me descrio para pernoitar luares.

Volto ao silêncio
entregando ausências a quem me pediu.

Máscara

Na parede do dia
o espelho: fantasia!
Nele a coisa me olha
solitária... solitário...

Fantasia

tirei a máscara.
sobrou um coração
sem cara, que dispara
um coração do mundo.
arranquei
arranquei a máscara.
perdi toda a graça...
virei vagamundo!

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Quando sopra o vento

quando
sopra o vento
o teu cheiro pousa
na palavra saudade.
assim é o mundo: não
existe porta... e todo amor
que te rodeia morrerá um dia.
quando
sopra o vento
o teu cheiro pousa
no coração da cidade.
assim é o tempo: não
existe porta... e tudo é medo
e tudo é segredo!

Eu não morri em Santa Maria

eu não morri
em Santa Maria.
estou vivo do outro lado
sentindo os que os vivos sentem
ouvindo o grito abafado dos mortos.

não
mesmo que meu desejo
fosse o de morrer com os mortos
de Santa Maria, continuo vivo!

a lágrima que cai
abre a porta do mar das lamentações
e acorda outros mortos de antigas tragédias.

(seu filho não voltou, mãe! seu filho não voltará!
inútil ligar, inútil gritar... a fumaça da morte o levou.)

meu amor pela vida clareia o mundo inteiro
mas é pequeno e contraditório... é só meu.
não é maior que a trágica noite de Santa Maria!

eu não morri
em Santa Maria. estou vivo
e meus olhos passeiam por nomes que desconheço.
vejo a rua, vejo corpos... e o desespero das pessoas.

haverei de pisar outros corpos, outros mortos
até cair extenuado na sensação inútil
de que viver é caminhar para a solidão.

não, eu não morri em Santa Maria...
mas meu coração cansado e desesperançado ficou lá!

O que sinto

O que sinto
vem da vida
perdida e vazia.
Basta a saudade
e o verso se oferece!

Resta-me então a poesia
que nasce da sua ausência
- palavra que não conhecia.

Resta-me então o seu nome
que segue guardado comigo
que em noites frias recito
como se fosse uma prece!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Desculpa

O poema vem
porque sinto pena
das declarações
de amor que não faço...
Viver - palavra tão pequena
nesses poemas perdidos
e sem alegria.
Maior a saudade - que cultivo
e que mantém do passado
o amor ainda vivo!

Oferenda

a vida
me oferece
seus caminhos...
e viver assusta!
sigo sempre
desfazendo
os ninhos
mas guardando
esta saudade injusta!

Fim do dia

O dia
envelhece
com a tarde.
Há um silêncio
triste e escuro!
Esvai-se o dia
e ouço (longe) a prece
de um poeta solitário e puro.
A tarde aumenta de tamanho
até ser noite lentamente...

Dentro de mim é que a noite existe.
E sendo muitos, mais a solidão insiste.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Ventania

a tarde descansa
na sombra do dia.
nas mãos
o pêndulo
das horas.

a vida habita
a tarde
e a ela se dá (e tanto)
que não percebe a dor
(calor)
no corpo
da tarde:
agonia...

e nada posso fazer
senão
este poema fragmento
de noite
estrela
mergulhado
no calor da tarde
em sua extrema
agonia
que descansa na sombra
do dia.

este poema vento!