domingo, 24 de fevereiro de 2013

Quando sopra o vento

quando
sopra o vento
o teu cheiro pousa
na palavra saudade.
assim é o mundo: não
existe porta... e todo amor
que te rodeia morrerá um dia.
quando
sopra o vento
o teu cheiro pousa
no coração da cidade.
assim é o tempo: não
existe porta... e tudo é medo
e tudo é segredo!

Eu não morri em Santa Maria

eu não morri
em Santa Maria.
estou vivo do outro lado
sentindo os que os vivos sentem
ouvindo o grito abafado dos mortos.

não
mesmo que meu desejo
fosse o de morrer com os mortos
de Santa Maria, continuo vivo!

a lágrima que cai
abre a porta do mar das lamentações
e acorda outros mortos de antigas tragédias.

(seu filho não voltou, mãe! seu filho não voltará!
inútil ligar, inútil gritar... a fumaça da morte o levou.)

meu amor pela vida clareia o mundo inteiro
mas é pequeno e contraditório... é só meu.
não é maior que a trágica noite de Santa Maria!

eu não morri
em Santa Maria. estou vivo
e meus olhos passeiam por nomes que desconheço.
vejo a rua, vejo corpos... e o desespero das pessoas.

haverei de pisar outros corpos, outros mortos
até cair extenuado na sensação inútil
de que viver é caminhar para a solidão.

não, eu não morri em Santa Maria...
mas meu coração cansado e desesperançado ficou lá!

O que sinto

O que sinto
vem da vida
perdida e vazia.
Basta a saudade
e o verso se oferece!

Resta-me então a poesia
que nasce da sua ausência
- palavra que não conhecia.

Resta-me então o seu nome
que segue guardado comigo
que em noites frias recito
como se fosse uma prece!